Análise de dados: salário mínimo 2021 e seu poder de compra

Análise de dados: salário mínimo 2021 e seu poder de compra
02 de abril de 2021
Última modificação: 02 de agosto de 2021

Autor: Virgilio F. M. dos Santos
Categorias: Análise de dados, Blog

Uma das coisas que mais me causam espanto é a variação do preço das coisas. Não estou falando especificamente da inflação, pois como nasci em 1984, tinha 10 anos quando esse dragão foi debelado. Nesta época, as minhas preocupações financeiras diziam respeito à alocação do dinheiro da mesada. Quando recebi meu primeiro ordenado, em 2003, inflação era um monstro do passado. O que me chama atenção é como o valor relativo das coisas varia. Seja um Big Mac, salário mínimo, cesta básica e principalmente imóveis, a variação é enorme.

Quando consegui meu primeiro estágio de final de curso, em 2005, o valor que recebia era de R$1.500,00. Na época, morava num bairro próximo ao trabalho na capital paulista, num confortável apartamento de 3 quartos (no modelo república, diga-se de passagem). Neste ano, o valor do imóvel era R$150.000,00, o que para mim era um espanto.

Poder de compra

Precisava de 100 meses poupando 100% do valor recebido para conseguir efetuar a compra. Hoje, o mesmo apartamento custa R$1.300.000,00 e o estágio está R$2.539,00 segundo o site Glassdoor. Uma conta simples, mostra que um estagiário precisaria de 512 meses para comprá-lo. Em 2005, o sonho custaria 8 anos e 4 meses de poupança, em 2021, 42 anos e 8 meses.

Fico intrigado com uma variação dessa magnitude sobre o preço dos imóveis, pois isso equivale a dizer que o poder de compra do estagiário para adquirir seu sonhado apartamento reduziu-se 5 vezes. Por quê? Qual seria a causa para isto? Se fizéssemos a análise em dólar, o salário de 2005 seria de US$691,00 e hoje, US$444,65.

É menor, mas não na proporção de 5 vezes. O apartamento custava US$69.125,00 e hoje custa US$227.670,00, 3,3 vezes mais. Isso, no dólar maluco de 2021, se estivéssemos em 2019 o apartamento custaria US$336.000,00, já o salário US$657,00. Quer dizer, salário quase o mesmo e o imóvel nas alturas.

Não é intrigante essa análise?

Quase que cruel, se imaginarmos que a importância que tem o primeiro imóvel na vida de tantos brasileiros? Em 10 anos de diferença, uma pessoa deveria trabalhar 34 anos e 4 meses a mais. Para tentar entender de onde vem essa possível variação, podemos explorar o comportamento de indicadores ao longo dos anos. O primeiro deles é o salário mínimo. Como fonte do estudo, utilizei o Ipeadata 3.0.

É um excelente site do IPEA que consolida uma grande quantidade de dados. Apesar de um período grande à disposição, analisarei de 2005 até 2021 para fins de comparação.

Evolução salario mínimo 2021

Figura 1: evolução do salário mínimo de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Pelo gráfico da figura 1 é possível avaliar a evolução ao longo desse período. O salário mínimo cresceu 4,23 vezes. Mas ainda assim, o apartamento cresceu mais. Em 2005, eram necessários 577 salários mínimos e em 2021, 1.182. Por maior impacto que o aumento do salário mínimo tenha no custo das obras, há ainda impactos outros que não ele.

Para fins de avaliar a desigualdade, pode-se comparar a bolsa estágio do mercado financeiro em relação ao salário mínimo. Em 2005, 5,8 e em 2021, 2,3. Nesse caso, a distância entre o salário mínimo e a bolsa estágio reduziu pela metade, o que demonstra um aumento real do poder de compra do trabalhador de baixa qualificação.

O desempenho do salário mínimo

Se preferir olhar por outra perspectiva, observa-se que o aumento repassado no salário mínimo não mais pode servir de base para o aumento dos demais salários. Outro dado interessante, que veremos na figura 2, é o preço da cesta básica.

Figura 2: evolução da cesta básica de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Figura 2: evolução da cesta básica de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Segundo o gráfico da figura 2, a cesta básica no período teve seu valor multiplicado por 3,78, menos que o salário mínimo e menos que o apartamento em questão. Com o valor da cesta básica e do salário mínimo pode-se fazer um outro gráfico, figura 3, para entender quando a percepção de valor da cesta aumenta. Para isso, colocar-se-á o valor de janeiro de 2005 como 100, para ambos os indicadores.

Figura 3: evolução da cesta básica e do salário mínimo de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Figura 3: evolução da cesta básica e do salário mínimo de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

A figura 3 mostra a diferença entre o salário mínimo e a cesta básica. Quanto maior o segundo gráfico dela, melhor. Observa-se que setembro de 2017 foi o melhor período, com o salário mínimo sendo capaz de 117 pontos-base a mais que a cesta básica. Quer um jeito mais fácil de captar essa ideia? Façamos um gráfico do poder de compra do salário mínimo em relação às cestas básicas. Análise disponível na figura 4.

Figura 4: evolução da cesta básica e do salário mínimo de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Figura 4: evolução da cesta básica e do salário mínimo de janeiro de 2005 até fevereiro de 2021.

Pela figura 4 é mais fácil compreender o real impacto da relação entre a cesta básica e o salário mínimo, haja vista que ninguém compraria um título atrelado a alguns deles para especular. Pelo gráfico da figura 4 é possível identificar janeiro de 2010 e o início de 2012 como os melhores períodos para o trabalhador remunerado com um salário mínimo.

O que aconteceu em 2020?

Olhando para 2020, o cenário é horrível. com o mês de dezembro alcançando 1,6549. Se, com um salário mínimo em 2012 era possível alimentar duas pessoas no mês, em 2020, mal dava para uma e meia. A percepção do assalariado foi da volta ao complicado 2008, época da crise global do subprime.

A queda, nessa importante relação da figura 4, inicia-se em dezembro de 2019. Tal fato contrapõe o famoso argumento de atribuí-la somente à crise. Não há em termos de queda. Uma maneira de medirmos a percepção de melhora ou piora desse indicador é avaliar a sua variação. Por meio da variação mensal, é possível identificarmos os períodos que o trabalhador mais sentiu “angústia” na hora de fazer suas compras.

Figura 5: análise da Variação Mensal da Relação entre Sal. Mín. e C. Básica.

Figura 5: análise da Variação Mensal da Relação entre Sal. Mín. e C. Básica.

Pela figura 5, avaliou-se via um Gráfico de Controle de Individuais, a variação mensal da relação entre salário mínimo e valor da cesta básica. Pelos dados não serem normais, teve-se de transformar os dados por meio da transformação de Box-Cox. No gráfico 2 da figura 5, manteve-se os valores reais da relação para fins de compreensão. Ao contrário das percepções, a variação mensal está sob controle.

Descubra como fazer gráficos de controle, baixe o material:

O problema só aparece quando um período maior é avaliado. Por último, mas não menos importante, será avaliado a variação pelo IPCA. A análise está na figura 6.

Figura 6: gráfico de controle de individuais da variação mensal do IPCA

Figura 6: gráfico de controle de individuais da variação mensal do IPCA.

Pela figura 6 observa-se a variação mensal do indicador. De 2017 a 2020, a variação várias vezes ficou menor do que o limite inferior de controle, que é de -0,157%. Para uma análise um pouco melhor, pode-se estudar o indicador por meio de um gráfico de controle x-barra s para o ano.

grafico de controle da media anual da variação mensal de IPCA

Figura 7: gráfico de controle da média anual da variação mensal do IPCA.

Pela figura 7 percebe-se a aceleração da inflação de 2017 para frente. Mas, também percebe-se a variação dentro dos limites de controle, com exceção do próprio 2017. Olhando para o gráfico S, do desvio padrão das variações mensais dentro do ano, tem-se uma percepção da loucura do ano. A variação de 2020 quase estourou o limite de controle, mostrando forte volatilidade na variação mensal.

E o valor do imóvel, como seria se corrigido pelo IPCA? 

Figura 8: valor do imóvel corrigido pelo IPCA

Figura 8: valor do imóvel corrigido pelo IPCA.

Pela figura 8, pode-se ver que o imóvel corrigido pela inflação, teria um valor de R$ 348.880,95. Pelo valor, vê-se que o imóvel valorizou-se 3,72 vezes mais que a inflação. Enfim, pelo visto na análise, pode-se concluir que a opção pelo apartamento foi a melhor. Nos próximos, será analisado essa evolução frente ao índice Bovespa, dólar, IGP-M e INCC.

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