Hospitais e clínicas que buscam excelência em atendimento cada vez mais recorrem a um processo estruturado de avaliação externa: a acreditação hospitalar. Mas o que exatamente é isso e por que ela importa tanto para gestores, profissionais de saúde e pacientes?
Acreditação hospitalar é um processo voluntário de avaliação externa, conduzido por entidades independentes, que verifica se uma instituição de saúde atende a padrões rigorosos de qualidade, segurança e gestão.
No Brasil, o principal modelo é o da Organização Nacional de Acreditação (ONA), que certifica hospitais em três níveis progressivos. O objetivo central é garantir a segurança do paciente, padronizar processos e promover uma cultura de melhoria contínua.
O que é acreditação hospitalar?
A acreditação hospitalar é um método formal de avaliação dos serviços de saúde que visa assegurar a qualidade assistencial e a segurança dos pacientes. O processo verifica se a instituição segue padrões definidos de atendimento, gestão e cuidado ao paciente.
Enquanto certificações como a ISO 9001 podem ser obtidas por qualquer tipo de empresa, a acreditação hospitalar é um modelo exclusivo para organizações de saúde e carrega critérios específicos para o ambiente assistencial. O processo é:
- Voluntário: a instituição decide se submeter à avaliação
- Periódico: a certificação tem validade de 2 a 3 anos e exige renovação
- Reservado: todas as informações obtidas na avaliação são mantidas em sigilo pelo órgão avaliador
- Educativo: funciona como programa de educação continuada, sem caráter fiscalizatório
Breve histórico: da Joint Commission ao modelo brasileiro
A origem da acreditação hospitalar remonta a 1952, nos Estados Unidos, com a criação da The Joint Commission (TJC). Esse organismo estabeleceu normas e padrões que elevaram significativamente o nível de exigência nos hospitais americanos e serviram de inspiração para modelos ao redor do mundo.
No Brasil, o tema ganhou relevância na década de 1990, com a fundação da Organização Nacional de Acreditação (ONA). Atualmente, ONA e Joint Commission International (JCI) são as principais referências de acreditação para hospitais brasileiros, a ONA como modelo nacional e a JCI como reconhecimento global.
Por que a acreditação hospitalar é importante?
Os números revelam a dimensão do problema que a acreditação ajuda a enfrentar. Pesquisas indicam que dezenas de milhares de pacientes morrem anualmente no Brasil em decorrência de eventos adversos que poderiam ser prevenidos com processos mais rígidos de controle e qualidade. A acreditação hospitalar age diretamente sobre isso ao padronizar condutas, eliminar variações desnecessárias e fortalecer barreiras de segurança.
Os principais benefícios se distribuem por três grupos de partes interessadas:
Para os pacientes
A segurança do paciente é um dos pilares centrais da acreditação hospitalar. O processo busca reduzir riscos assistenciais, evitar eventos adversos e aumentar o controle sobre procedimentos clínicos.
Isso envolve práticas como identificação correta do paciente, protocolos cirúrgicos, controle de infecções e uso seguro de medicamentos. Pequenas falhas nesses processos podem gerar impactos graves dentro do ambiente hospitalar.
Para os profissionais de saúde
Sem padronização, cada profissional pode executar atividades de formas diferentes, aumentando o risco de falhas e inconsistências.
A acreditação cria critérios para que os processos assistenciais sigam protocolos definidos. Isso inclui rotinas de atendimento, administração de medicamentos, registros em prontuário e procedimentos internos.
Quando existe padrão, o hospital ganha previsibilidade operacional. As equipes entendem melhor suas responsabilidades e os processos se tornam mais fáceis de monitorar e corrigir.
Além disso, a padronização reduz a dependência de decisões isoladas e fortalece a qualidade da assistência prestada.
Para a instituição
- Diferencial competitivo e aumento de credibilidade junto a pacientes, convênios e parceiros
- Redução de custos operacionais por meio da eliminação de retrabalho e desperdícios
- Acesso a novos contratos com grandes operadoras de saúde que exigem acreditação
- Cultura organizacional de melhoria contínua com impacto direto nos resultados financeiros
Níveis de acreditação hospitalar: o modelo ONA
A Organização Nacional de Acreditação é a única entidade no Brasil que certifica em diferentes níveis progressivos, o que permite acompanhar a evolução da instituição ao longo do tempo. Os três níveis são:
Nível 1 — Acreditado
- Exige conformidade mínima de 70% dos padrões
- Validade de 2 anos
Nível 2 — Acreditado Pleno
- Exige conformidade mínima de 80% nos padrões de qualidade
- Exige pelo menos 70% nos padrões de gestão integrada
- Validade de 2 anos
Nível 3 — Acreditado com Excelência
- Exige conformidade mínima de 80% nos padrões de qualidade
- Exige pelo menos 80% nos critérios de excelência em gestão
- Validade de 3 anos
Cada nível avalia dimensões diferentes da organização: o Nível 1 (Acreditado) foca na estrutura e no cumprimento de requisitos básicos; o Nível 2 (Acreditado Pleno) exige integração de processos e fluidez da rotina corporativa; e o Nível 3 (Acreditado com Excelência) demanda maturidade institucional, cultura de melhoria contínua e alinhamento completo de toda a equipe.
Principais organismos de acreditação hospitalar
Além da ONA, as instituições brasileiras podem buscar reconhecimento por meio de outras acreditadoras nacionais e internacionais. Conheça as mais relevantes:
ONA — Organização Nacional de Acreditação
Organização não governamental brasileira, referência máxima no contexto nacional. Seus padrões estão descritos no Manual Brasileiro de Acreditação e podem ser aplicados a hospitais, ambulatórios, pronto-atendimentos, serviços de telemedicina e outros tipos de prestadoras de saúde.
JCI — Joint Commission International
Pioneira no mundo, a JCI é reconhecida globalmente e acredita mais de 22 mil organizações em mais de 100 países. Possuir a acreditação JCI eleva o status da instituição no cenário internacional e é especialmente relevante para hospitais que atendem pacientes estrangeiros ou buscam parcerias globais.
Accreditation Canada (Qmentum)
Modelo canadense baseado em três princípios: padrões de alto desempenho, segurança e qualidade. Também atua no Brasil por meio da QGA (Quality Global Alliance) e é reconhecida por sua abordagem colaborativa e educacional.
HIMSS — Healthcare Information and Management Systems Society
Acreditação internacional focada no uso de tecnologia nos procedimentos hospitalares. Avalia a maturidade digital da instituição e é especialmente indicada para hospitais em processo de transformação tecnológica e adoção de prontuário eletrônico.
Como funciona o processo de acreditação hospitalar: passo a passo
O processo de acreditação exige planejamento, engajamento de toda a equipe e, em geral, um período de 12 a 24 meses de preparação antes da visita dos avaliadores externos. Veja as principais etapas:
Decisão e comprometimento da liderança
A alta direção assume publicamente o compromisso com a qualidade e designa um responsável pelo processo, pode ser um profissional interno capacitado ou um consultor externo especializado. Um comitê multidisciplinar de acreditação é formado.
Diagnóstico e autoavaliação
A instituição levanta suas práticas atuais e as compara com os padrões exigidos, identificando lacunas e oportunidades de melhoria. Este passo é análogo ao 'Measure' e 'Analyze' do DMAIC — sem dados confiáveis, não há diagnóstico preciso.
Adequação e padronização de processos
Revisão e implementação de protocolos, fluxos de trabalho, políticas de gestão de riscos e registros. Aqui entram ferramentas Lean como mapeamento de fluxo de valor (VSM) e 5S para eliminar desperdícios e organizar os ambientes de trabalho.
Capacitação das equipes
Todos os profissionais precisam ter domínio sobre os critérios de acreditação. Treinamentos em gerenciamento de risco, liderança, comunicação efetiva e indicadores de qualidade são fundamentais nesta etapa.
Auditoria interna e simulações
Realização de auditorias internas para identificar ajustes antes da visita oficial. Testam-se planos de contingência, políticas de segurança e a aderência dos colaboradores aos protocolos.
Visita dos avaliadores externos
A agência acreditadora agenda uma visita in loco. Os avaliadores observam a rotina, entrevistam profissionais de todos os níveis, revisam documentos e verificam a aderência efetiva aos padrões.
Relatório, plano de ação e certificação
Com base na avaliação, a agência emite um relatório. Se identificadas não conformidades, a instituição implementa ações corretivas antes de ser reavaliada. Aprovada, recebe o selo de acreditação que deve ser mantido por meio de auditorias periódicas.
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