Análise de Dados: Dólar x Big Macs e seu poder de compra

15 de abril de 2020
Última modificação: 15 de abril de 2020

Autor: Virgilio F. M. dos Santos
Categorias: Análise de dados, Blog

E a relação: seu salário x Big Macs?

Faz tempo que não escrevo sobre a conjuntura econômica. O crescimento expressivo da FM2S tem consumido bastante o meu tempo. Clientes, gente, planejamento, operação, produtos, estratégia e feedback constante é algo que consome bastante do tempo e energia do gestor. Mas dado a peculiaridade do momento, decidi retomar o hábito que adquiri ao longo dos anos estudando Estatística.

Para comentar a conjuntura, o farei tal qual estou acostumado: por meio dos dados. Furto-me aqui de achismos, futurologia ou simplificações extremadas. Acho que este tipo de coisa já deve alcançar vocês por meio do Whatsapp, Telegram, sites e blogs de fonte duvidosa. Aqui falaremos sempre com base nos dados.

A primeira coisa que gostaria de analisar é o dólar. Será que a barreira recém quebrada dos 5 reais é algo “nunca visto na história deste país”? Ou se corrigirmos o valor da moeda estrangeira pelo nosso índice oficial de inflação encontraremos uma realidade um pouco diferente? Vou utilizar o período de análise de janeiro de 1995 até fevereiro de 2020. Fiz o corte em janeiro de 1995 para fins de simplificação, mas há dados disponíveis desde 1929.

E a fonte para a análise de dados?

Para isto, vamos utilizar como fonte o site do IPEA chamado IPEA data. Há uma versão 3.0 do site no ar que está ótima. Sugiro que acessem, se gostam das análises, porque há um conjunto enorme de dados para você fazer as suas. (http://www.ipeadata.gov.br/)

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Figura 1: taxa de câmbio USD x BRL de janeiro de 1995 até março de 2020.

Pela figura 1, a taxa de câmbio sem a correção pela inflação, é possível identificar o salto no último mês. Observando o gráfico todo é possível identificar os momentos de turbulência de nossa história recente: choque do câmbio em 1999, eleição do Lula em 2002, crise do subprime 2008, crise governo Dilma 2 (2014 até 2016), crise Temer em 2018 e crise COVID – 19 em 2020.

Para escapar dos exercícios de cálculo da taxa de cambio nominal e real, vamos para algo mais simples. Imagine que em janeiro de 1995 você tinha 200 reais na mão. A garoupa era um peixe extremamente raro naqueles tempos. E, você investiu 100 reais em dólar e emprestou 100 reais cobrando apenas a taxa de inflação IPCA. Qual teria sido seu rendimento? Utilizemos a figura 2 para ilustrar.

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Figura 2: análise do retorno de um investimento de 100 reais em dólar e IPCA em janeiro de 1995 até fevereiro de 2020.

Na figura 2 é possível identificar a evolução do preço do dólar e do IPCA ao longo deste período. Pelo gráfico percebemos que o pico do investimento em dólar foi em outubro de 2002. Mesmo com a alta de agora, o dólar não chegou ao retorno que dava em outubro de 2002, quando Lula ganhou a eleição para presidente. Podemos observar melhor a relação entre os investimentos se compararmos os dois por meio de uma relação, ou seja, dividir um pelo outro (Figura 4).

Mas, e aí?

Ah Virgilio, você pode-se perguntar, você foi até fevereiro de propósito. É em março de 2020 que a coisa ficou boa. Bom ponto, mas fui até março que enquanto escrevo não há dados disponíveis parra março ainda. Entretanto pode-se analisar se utilizarmos as estimativas do mercado para o dado que o IBGE irá soltar. Como estimativa, adotei 5,1 para o dólar e 0,11 para o IPCA. Como ficaria o gráfico da figura 2 nestas condições?

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Figura 3: análise do retorno de um investimento de 100 reais em dólar e IPCA em janeiro de 1995 até março de 2020.

Se taxa média considerada pelo IBGE para março de 2020 chegar nos 5,10, o valor alcançado não é tão impactante e dolorido como o alcançado em outubro de 2002. Estaremos próximos das incertezas e dores de 18 anos atrás. Naquele período, entretanto, não senti tanto na pele por estava no primeiro ano de faculdade, ou seja, a preocupação com o câmbio não era algo que me impactava, mas lembro o quão duro foi o ano de 2003 para meu pai. A distância dos dois períodos é de 1000 contra 1400 se tivesse investido 100 reais em janeiro de 1995, ou seja, não é pequena.

Como havia prometido antes, na figura 4 está a relação dos dois investimentos ao longo do tempo.

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Figura 4: relação entre inflação IPCA e dólar de janeiro de 1995 até março de 2020.

Apesar da esticada de março de 2020, a distância da taxa mensal de variação dos dois foi maior em 2002.

Antes de alguns falarem sobre a correção do dólar com a inflação americana, um aviso, não quero avaliar o valor real do dólar. O meu intuito aqui é acompanhar e comparar as taxas de correção, avaliando assim o retorno do ativo ao longo do tempo. Na minha percepção, se quisermos avaliar poder de compra ou custo de vida, acho o índice Big Mac melhor.

Você sabe o que é o índice Big Mac?

O Índice Big Mac foi criado em 1986 pela revista britânica The Economist e compara os preços do Big Mac em diferentes países no mundo onde contém a cadeia de restaurantes McDonald’s.

Este índice serve para comparar a Paridade do Poder de Compra (PPC) de cada um desses países usando como referência o Big Mac. Mesmo que feito de maneira informal, permite a comparação do poder de compra devido à presença da rede McDonald’s em vários países do mundo.

Além disso, o estudo considera o fato deste produto ser homogêneo em todos os países em que é comercializado, considerando os custos para oferecê-lo e o preço de venda.

Como está o índice Big Mac no Brasil?

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Figura 5: evolução do preço do Big Mac em dólar no Brasil.

Pela figura 5, nota-se que o poder de compra muda de estágio a partir de 2003. Há uma evolução anual constante de 2003 até 2012. É neste período que o poder de compra do brasileiro alcance o ápice. Pelo gráfico, percebe-se que o poder de compra do brasileiro sai de 1,44 dólares por Big Mac em abril de 2003 e alcança 6,162 dólares Big Mac em julho de 2011. É um crescimento de 4,27 vezes em 8 anos, o que mostra o porquê do resultado das eleições de 2010.

Depois disto, o patamar de variação do preço em dólar do Big Mac estabilizou. O gráfico de controle da figura 5 mostra que qualquer valor entre 3,5 e 6,3 dólares por Big Mac está em controle estatístico de processo.

E os preços em reais do lanche? Como ficaram?

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Figura 6: preço do Big Mac em reais.

Pela figura 6 vê-se claramente que os preços em reais estão subindo e isto significa que o poder de compra da moeda brasileira cai. Isto é um fato causado pelo aumento na taxa de câmbio, mas a análise mais legal que podemos fazer é diferente. A análise é comparar o preço das coisas com o número de Big Macs que se conseguiria comprar. Que tal o salário mínimo?

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Figura 7: número de Big Macs comprados com um salário mínimo.

Olha que interessante a figura 7. Por meio dela é possível identificar que o índice Big Mac é um ótimo medidor do poder de compra, já que apesar de todo o aumento do salário mínimo no período (151 reais para 1039) o poder de compra de Big Macs continua próximo. O gráfico de controle mostra 2004 e 2006 como pontos fora da curva na ótica do baixo pode de compra e janeiro de 2016 como alto.

Análise de dados: e o poder de compra?

Porém, um dado é interessante: o poder de compra do salário mínimo medido pelo índice Big Mac de janeiro de 2020 é muito próximo ao de 2005. Ou seja, a queda de 2020 é algo que deve ser monitorado, haja vista que ninguém gosta de ter se poder de compra reduzido. Porém, é importante reforçar que o poder índice Big Mac ainda está dentro dos limites de controle. E, será que índice Big Mac é bom como forma de medição do poder de compra do salário mínimo?

Para responder a esta pergunta, lancemos mão do índice de poder de compra do salário mínimo medido pelo IPEA chamado “Salário mínimo – paridade do poder de compra (PPC)”. Observemos se a conclusão do mesmo será parecida com àquela do índice Big Mac.

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Figura 8: evolução do PPC (Paridade do Poder de Compra) calculado pelo IPEA.

Então, pela figura 8 o PPC vem crescendo de maneira constante, o que vai contra o índice Big Mac. Pelo PPC o poder de compra do salário mínimo no Brasil é cada vez maior. Quer comprovar? Há duas maneiras de se fazer isto: a primeira por meio de um gráfico de dispersão e a segunda por meio de um gráfico de tendência múltiplo comparando as duas taxas de variação.

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Figura 9: gráfico de dispersão entre Número de Big Macs que o salário mínimo compra e o PPC calculado pelo IPEA.

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Figura 10: gráfico de controle da variação no período analisado.

Logo, pelos gráficos da figura 9 e 10 fica claro que o PPC mostra um salário mínimo com um poder de compra cada vez maior a uma taxa média de 3,66% por período ao passo que o índice Big Mac mostra 0,24%, o que é bem menor. Esta é uma taxa média 15 vezes menor, portanto talvez faça mais sentido o índice Big Mac.

E, então?

Como conclusão, pode-se afirmar que a esticada no preço do Big Mac em 2020 talvez cause impacto nas vendas do lanche, pois o salário mínimo não aumentou na mesma proporção. É fato que a crise na qual estamos entrando irá forçar uma inflação próxima de zero, quiçá deflação principalmente nos preços dos itens supérfluos.

Quanto ao dólar, vimos no início do texto que está alto, mas não tão alto como esteve em 2002. Apesar dos impactos que estamos sentindo, pode-se afirmar que já passamos por movimento altista maior sem perdemos as bases do tripé macroeconômico que nos sustenta. Se bobagens não forem tentadas, a coisa irá melhorar.

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