Análise de dados: qual o impacto da crise 2020 na indústria?

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16 de abril de 2020
Última modificação: 16 de abril de 2020

Autor: Virgilio F. M. dos Santos
Categorias: Análise de dados, Blog

Aproveitando o diário da quarentena vamos tentar entender qual será o impacto, na economia, da crise 2020 causada pela paralisação da atividade econômica como uma medida decorrente dos protocolos da autoridade sanitária para conter a PANDEMIA causada pelo COVID-19.

E, mais especificamente, como o setor industrial tradicional, representado pela indústria de transformação, grosso modo, poderá reagir a isso. Afinal, a indústria apresenta as maiores cadeias econômicas e apresenta as melhores condições de empregabilidade, salvo o funcionalismo.

É importante, nesse sentido, reconstruir o panorama histórico.

Nesse contexto, o site do IPEA (http://www.ipeadata.gov.br/) disponibiliza  a a plataforma 3.0 com abundância de indicadores e facilidade na coleta dos dados que permitem o cruzamento e a formação do cenário indicado.

Por onde começar?

O primeiro índice a ser avaliado é o consumo de energia elétrica da indústria, por ser um setor intensivo na utilização desse insumo tornando-se um bom indicador para medir seu nível de operação:

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Figura 1: consumo de energia da indústria em GWh de janeiro de 1995 até dezembro de 2019.

Pela figura 1 percebe-se que a indústria está com o consumo de energia próximo ao de 2006. Assim, a tomarmos em consideração o consumo de energia,o  Brasil está no mesmo patamar industrial de 14 anos atrás, o que é claro, não é algo bom. 

O dado da figura 1 é mensal, mas para melhor visualizar a evolução do consumo poderia se fazer uso de um gráfico de controle do tipo X barra – S em que são plotados as médias anuais e o desvio padrão dentro do ano. Tal gráfico está exposto na figura 2.

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Figura 2: gráfico de controle de subgrupos xbarra s do consumo de energia em GWh das indústrias.

Pela figura 2 fica claro a evolução industrial. Entre 1995/2006. Contudo, é importante considerar que entre 2003 e 2006 houve uma expansão da atividade econômica, mas essa não foi puxada pela indústria. Antes, foi o resultado de um contexto global favorável ao setor primeiro da economia (agro), principalmente de commodities in natura, com pouca ou nenhuma participação, portanto, do setor de transformação.

Já entre 2006 e 2013  houve um ensaio de crescimento, se estabiliza em um patamar mais baixo a partir de 2016.

Dessa forma, pelo gráfico da figura 2, a indústria brasileira ainda não superou a crise do governo Dilma.

Mas, é somente este motivo?

Se você é um leitor antenado, pode se perguntar: será? Não há possibilidade de o consumo ter caído pelo aumento da eficiência energética das indústrias? Essa hipótese, entretanto, precisa ser testasa.

Para tanto analisar-se-á o faturamento real da industrial dessazonalizado. O índice é calculado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) com base no ano de 2006. Neste ano, o valor é 100. Os outros, são comparações em relação a este ano. Será analisado o indicador de janeiro de 1995 até dezembro de 2019.

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Figura 3: Faturamento real – indústria – índice dessaz. (média 2006 = 100).

Pela figura 3 fica claro que a queda no consumo de energia elétrica não foi aumento da eficiência energética do Brasil, mas sim queda na atividade.

O faturamento atual, sem qualquer externalidade relacionada à economia ou, por assim dizer,  pré COVID – 19 apresentava índices de 2000. Em termos de faturamento, a indústria está no mesmo patamar de 20 anos atrás: em outros termos, estagnamos.

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Figura 4: gráfico de controle x-barra s do Faturamento real – indústria – índice dessaz. (média 2006 = 100).

Pela figura 4 fica claro a provocação feita anteriormente, a coisa está péssima. O faturamento está sob controle estatístico de processo se voltarmos ao patamar de 2001, 2002, 2004 e 2016, 2017, 2018 e 2019. Pode-se concluir que para indústria 2010 a 2020 foi uma década perdida. O pico alcançado em 2013 está longe do patamar atual. É 128 contra 101, ou seja, queda de 27 pontos percentuais no índice.

Será que o consumo de energia elétrica é um bom preditor do faturamento da indústria?

Pode-se realizar uma regressão linear para responder a esta questão.

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Figura 5: regressão linear entre consumo de energia (x) e faturamento da indústria (y).

Pela figura 5, 67,6% da variabilidade no faturamento pode ser explicado pela variabilidade do consumo de energia elétrica pela indústria. Além disto, a cada 1 GHw espera-se uma resposta de 0,82 em faturamento. Ou seja, a indústria brasileira não está consumindo menos energia pela eficiência energética, mas sim pela falta de atividade e faturamento.

E qual será o custo da energia?

Se a indústria está com uma atividade menor, consumindo menos energia, qual será o custo da energia? Será que a energia segue a lei da oferta e da procura estando mais barata, já que nosso consumo está igual ao de 2001? Observe a figura 6 para responder a este questionamento.

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Figura 6: Consumo – energia elétrica – indústria – tarifa média por MWh

Pela figura 6 fica claro o aumento do custo da energia elétrica. O MWh para indústria foi de 46 reais para 490, ou seja, um crescimento de quase dez vez para uma indústria que anda em dificuldades. Em 2001, ano que o faturamento da indústria está próximo, o custo por MWh era de 81 reais. Hoje, com o faturamento parecido, o custo está em 490. Um industrial tem de ter a capacidade para absorver um aumento de 5 vezes no custo da energia faturamento a mesma coisa dos anos 2000.

Depois de 2014, o valor dobra. Pelo gráfico, percebe-se um controle artificial dos preços de 2006 até 2014. Depois disto, os preços voltam a subir, mas desta vez a taxas mais altas. Por meio de um gráfico de controle ficará mais fácil avaliar.

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Figura 7: gráfico x barra s do consumo – energia elétrica – indústria – tarifa média por MWh.

Olhe atentamente para o gráfico da figura 7. O aumento dos governos FHC e Lula são gerenciáveis pela indústria, porque o desvio padrão dentro dos anos é relativamente baixo e está sob controle. No governo Dilma, ocorre a bagunça que todos conhecemos, ou seja, da manutenção artificial dos preços da energia elétrica até o limite. Após as eleições, o governo libera a tarifa em 2015 e o valor explode. Diante deste cenário, como o empresário poderia planejar seus investimentos? Investe-se em mais linhas? Ou eficiência energética? Será que o faturamento iria voltar? Por que a energia em 2012 caiu tanto? Era sustentável? Pelo visto, as indagações colocadas são passíveis de resposta agora, mas naquele tempo seria muito difícil apostar no que aconteceu de fato.

E a utilização da capacidade instalada da indústria?

Este índice de conjuntura econômica é medido FGV mensalmente desde 1998. Como vocês acham que é o comportamento dele? Pelo faturamento e consumo de energia espera-se que a utilização da capacidade instalada também esteja em queda.

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Figura 8: Utilização da capacidade instalada – indústria – média.

Pelo gráfico da figura 8 fica claro que a percepção gerada pelos demais indicadores estava certa. Desde 2014 a utilização da capacidade instalada fica em 74% em média. Ou seja, há 25% de força industrial que não é utilizada no país. Mesmo assim, a energia elétrica subiu 8 vezes no mesmo período. A indústria reduz a utilização de sua capacidade de 82 para 74 e a energia elétrica ainda sobe. Complexa equação.

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Figura 9: gráfico de controle x barra s da Utilização da capacidade instalada – indústria – média.

E, então?

Pela figura 9, verifica-se a queda na utilização da capacidade industrial ocorrida no governo Dilma. De 2014 para 2015 houve uma queda de quase 8 pontos percentuais. Isto, no parque industrial nacional, significa muitos empregos, renda e capacidade de investimento que se perdeu. De lá para cá, nada parece ter se recuperado.

No site, há mais números de vários tipos de indústrias específicas, mas com estes que aqui estão, dá para ter noção do quão difícil será a tarefa. A indústria no Brasil precisa de cuidados e apoio. Precisa de um plano de crescimento sustentável e fundamentado, senão sofreremos da indústria holandesa. Por melhor que possa parecer a porta de transferência dos empregos para o serviço, a qualidade destes sejam melhores que a indústria.

Há uma série de condicionantes que ao incorporar não a mão de obra da indústria para o setor de serviços destroem toda uma cadeia de valor que vai desde a proteção social do trabalhador até a otimização na distribuição da renda resultante do trabalho, por meio dos encargos que são gerados e suportados por essa cadeia.

Texto escrito com a colaboração do Alcir José Russo Jr, conselheiro jurídico da FM2S.

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